ATIVIDADE PARANORMAL -"Onde foi parar o 'terror'?"

por Lucas Rey
____________
Uma metragem que custou 15 mil dólares. Uma propaganda que mostra a reação das pessoas no cinema (já havia visto algo similar em [REC]). O falatório e o boca-a-boca. Uma arrecadação de mais de 100 milhões de dólares. Essa é a trajetória, resumida, do fenômeno Atividade Paranormal, uma das produções (se não a produção!) mais lucrativas da história da telona. Obviamente, para ficar mais 'bonito', faltam certas informações: após prévias, o longa recebeu injeção de dinheiro (bem verdade que continua com orçamento humilde) e nada mais do que o apadrinhamento (e as dicas) de Steven Spielberg.

Na casa de Micah e Katie, coisas estranhas estão acontecendo. Com intuito de desvendar o mistério, eles utilizam uma câmera para captar toda a atividade paranormal: o que descobrem é que um espírito demoníaco os persegue.

É inegável - ao menos pelo argumento - que se está diante de um objetivo corajoso: criar muito com pouco. Pois, Atividade Paranormal quis ir longe demais. Não pelo custo inicial modesto, mas por querer enganar o seu espectador a todo o momento. Na tentativa de incorporar um clima de tensão, o israelense Oren Peli - além de propor a filmagem a la cinema you tube (em 1ª pessoa) e até chegar bem próximo do estilo (sem o cacife) de a Bruxa de Blair - anuncia tudo o que vai acontecer, achando que isso vai criar expectativa. Além das 'cenas assustadoras' preditas, o roteiro é esquematizado (o final é muito previsível), e torna a obra lenta e demorada em certos momentos.

Os problemas narrativos conseguem ser supridos, em uma parte muito pequena, pelas interpretações do casal. Talvez a coisa mais realista na apresentação seja o modo como Katie Featherson encara os fenômenos e interpõe suas expressões (não é genial, mas dá suporte). No caso de Micah Sloat, maldito seja o seu personagem, tamanha sua obstinação que, aliás, é bem figurada pelo ator. Além disso, os efeitos especiais, bastante simples, são bons.

Atividade Paranormal não é eficiente: inexiste suspense em uma hora e meia de trabalho. Pelo lado 'espiritual/religioso/exotérico', se torna interessante, limitado ao caso sugerido. Contudo, a proposta, bastante clara, de fazer um terror resulta em algo inconsistente e bastante debilitado.
_________________________________________________
* Título Original: Paranormal Activity
* Direção: Oren Peli
* Elenco: Katie Featherston, Micah Sloat, Marc Fredrichs, Ashley Palmer, Amber Armstrong, Randy McDowell.
* Roteiro: Oren Peli
* Ano: 2007
* Duração: 86 minutos
* Site: http://www.paranormalactivity-movie.com/
_________________________________________________

LUA NOVA - "Aos fãs, com carinho"

por Lucas Rey
____________
Crepúsculo (a saga) traz à tona questões muito curiosas. Estou certo que se trata de uma grande fantasia, um sonho de menina (falo genericamente - sem, é claro, querer desrespeitar os homens mais sensíveis): a figura sombria e charmosa do vampiro respeitando, protegendo, amando, venerando e tratando como uma princesa a humana frágil. Contudo, pensando um pouco no assunto, me recorreu que há um equivalente no mundo masculino (genericamente falando, mais uma vez): Show de Vizinha é o desejo de todo o garoto adolescente - uma supergata apaixonada pelo cara normal (que não é 'sarado', popular, etc.) e que o leva a fazer coisas loucas. Então, assim como eu penso nesse devaneio como algo perfeitamente normal - e, portanto, o longa muito legal - acredito que não cabe aqui discutir o mérito de Crepúsculo em cativar tanto público, pois jamais entenderei esse universo. O que creio dever fazer aqui é transpor minha impressão pura sobre a metragem.

Edward abandona Bella, por achar muito perigoso ela conviver com sua família de vampiros. Em depressão, a garota encontra o apoio e o conforto em seu amigo Jacob Black, que logo revela ser um lobisomem.

O novo capítulo da série continua com um roteiro pobre. As situações e o drama permanecem mal desenvolvidos (a depressão de Bella é irritantemente vazia), apesar de Lua Nova parecer bem pouca coisa mais trabalhado. Os personagens (me refiro ao trio, pois os demais são tratados como irrelevantes pela própria produção) não possuem força ou característica marcante; e se insiste nos dramalhões e chororôs sem conteúdo, completamente superficiais. A pauta imersa em frases de amor clichês tornam a apresentação desinteressante e a tal da 'filosofia sobre a alma' é tão rasa e inconsistente, que constrange só de pensar. Enfim, não há esforço para melhor desenvolver o argumento (por exemplo, as motivações de Edward são banais!).

Quanto à direção, houve intensa melhora em relação à primeira obra: os takes são mais atraentes (giros de câmera muito legais), contudo falta um pouco de coragem para exigir interpretações melhores. Além disso - apesar do cenário continuar bem estruturado - os efeitos especiais são tenebrosos: os lobisomens (ou lobos?) e a ação deles são terríveis, extremamente incoerentes com a realidade das cenas, parecem mais bonecos gigantes de pelúcia se movendo para lá e para cá.

Kristen Stewart recebe a ingrata missão de segurar todo o filme. Apesar de diminuir consideravelmente seus trejeitos irritantes (e possuir alguns poucos bons momentos), a bela moça continua desapontando, com a imaturidade e a fraqueza que não deveria mais possuir; e com a voz insegura, que não transmite confiança. Contudo, a pouca solidez de Stewart é elogio, se comparada às atuações dos outros dois. Robert Pattinson - o rostinho bonito da saga - involui e não possui expressão ou verdade alguma. Taylor Lautner, a massa de músculos, bem,... não passa de uma massa de músculos. Dakota Fanning atua pouco, mas é ponderada; enquanto Michael Sheen está irregular.

É melhor que o seu antecessor, com certeza! Por exemplo, a narrativa não causa sonolência como o primeiro. Fãs que gostaram de Crepúsculo (2008), se deleitem com Lua Nova, pois vocês o amarão! O triângulo amoroso permanece nas telonas: para delírio dos fanáticos e desprezo da crítica.
_________________________________________________
* Título Original: The Twilight Saga: New Moon
* Direção: Chris Weitz
* Elenco: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Taylor Lautner, Nikki Reed, Dakota Fanning, Billy Burke, Michael Sheen, Peter Facinelli.
*Roteiro: Melissa Rosenberg (baseado no romance de Stephenie Meyer)
* Ano: 2009
* Duração: 130 minutos
* Site: http://www.newmoonthemovie.com/
_________________________________________________

Comentários para os filmes de novembro

2012 - "Realmente,... nós fomos avisados"
por Lucas Rey
____________
O marketing deu resultado! Os anúncios em cima do novo filme-catástrofe (e mais um na vida do alemão Roland Emmerich, também responsável por Independence Day e O Dia Depois de Amanhã), que trata sobre o fim do mundo no ano de 2012, fizeram com que salas e mais salas se enchessem de espectadores curiosos.

No entanto, o mais curioso é que a previsão dos maias quanto ao fim do mundo - teoricamente, o ponto de partida do argumento do longa e alvo da frase-propaganda nos cartazes ("nós fomos avisados") - simplesmente é ignorada (para não ser injusto, acho que foi CITADA uma única vez). Ou seja, como já devem ter percebido, sábios leitores, 2012 é mais uma produção imersa em efeitos especiais, com um roteiro que deixa a desejar.

Não é uma história horrorosa. Em alguns momentos, até tenta equilibrar as passagens, mostrando destruição em diversos lugares do planeta; contudo, na massiva parte, a narrativa se estende esquecendo completamente que se trata de um drama global e não somente das tensões que envolvem a família de John Cusack. Esse foco exagerado faz do trabalho mais uma aventura familiar do que, necessariamente, uma tragédia da humanidade.

Na parte estética, a obra é bonita. Efeitos visuais bem feitos (com exceção de algumas cenas mal acabadas) e criatividade nas partes que envolvem os desastres (pessoalmente, a cena do porta-aviões me deixou apequenado e comprimido na poltrona). Também vale lembrar que a interpretação de Woody Harrelson é muito boa, figurando o tom sarcástico da película.

No final de tudo, 2012 é tudo aquilo que fotos e vídeos nos mostraram. Um show de efeitos especiais, cuja sensibilidade do roteiro é muito pouca frente a essa incógnita ao homem.
_________________________________________________
* Título Original: 2012
* Direção: Roland Emmerich
* Elenco: John Cusack, Amanda Peet, Chiwetel Ejiofor, Thandie Newton, Oliver Platt, Danny Glover, Woody Harrelson, Thomas McCarthy, .
* Roteiro: Roland Emmerich e Harald Kloser.
* Ano: 2009
* Duração: 158 minutos
* Site: http://www.sonypictures.com/movies/2012/
_________________________________________________

OS FANTASMAS DE SCROOGE - "Quem é Scrooge?"
por Lucas Rey
____________
A história de Ebenezer Scrooge, grande parte do público já sabe: o envelhecido homem avarento que é visitado pelos três fantasmas do Natal, os quais mostrarão os natais passado, presente e futuro dele.

O filme é visualmente encantador. Além da animação (por captura de movimentos) ser excelente - uma evolução em relação a Beowulf - a técnica 3D é aproveitada muito bem, principalmente no início, na tomada aérea, quando o espectador quase sente a neve tocar-lhe o rosto.

Já o desenvolvimento do roteiro não é tão bom assim. Primeiramente, Scrooge (Jim Carrey, que nem em desenho perde a careta!) não é um personagem marcante (nem carismático, nem odioso) nesta metragem e não demonstra características fortes como em outras versões cinematográficas, por exemplo. Resumidamente, se existisse somente esta obra (sem outras adaptações ou o próprio conto), o velhinho seria esquecível. Depois, as situações apresentadas na produção têm eficácia bastante limitada, várias vezes carecendo de sentimentalismo, emoção e, principalmente, profundidade - está muito aquém das lições tiradas na literatura de Charles Dickens.

Fica a decepção de um argumento mal aproveitado e um roteiro muito raso em relação ao escrito do britânico. Contudo, vem a recepção calorosa à uma animação sedutora e o fascínio à melhor cena sensorial em 3D que já viu o autor que vos escreve.
_________________________________________________
* Título Original: A Christmas Carol
* Direção: Robert Zemeckis
* Elenco: Jim Carrey, Gary Oldman, Colin Firth, Robin Wright Penn, Cary Elves, Bob Hoskins.
* Roteiro: Robert Zemeckis (baseado na obra de Charles Dickens)
* Ano: 2009
* Duração: 96 minutos
*Site: http://disney.go.com/disneypictures/achristmascarol/
_________________________________________________

JOGOS MORTAIS 6 - "Por caminhos cada vez mais tortuosos"
por Lucas Rey
____________
É bem triste ver a persistência de alguns, mesmo quando o mundo todo os contraria. Jogos Mortais já perdeu a característica de inovação e, de uns filmes para cá, cai na mesmice em toda a nova santa parte. Com a sexta (na qual Hoffman continua o legado de Jigsaw, distorcendo seus ideais) não é diferente.

Para variar, o longa não possui objetividade alguma - aliás, a melhor premissa é que estamos diante do capítulo final - e, uma vez mais, se pauta nos retalhos, falsos liames e supostas conexões com as metragens anteriores que beiram o banal. Os jogos estão cada vez menos criativos e os personagens cada vez mais irritantes.

Contudo, não tenham a esperança de que acabou. O advento do 3D deu uma sobrevida à série, cujos produtores anunciaram uma sétima produção, com a nova técnica. Pois é, parece que não acaba tão cedo.
_________________________________________________
* Título Original: Saw VI
* Direção: Kevin Greutert
* Elenco: Tobin Bell, Costas Mandylor, Marc Rolston, Betsy Russell, Athena Karkanis.
* Roteiro: Marcus Dunstan e Patrick Melton.
* Ano: 2009
* Duração: 90 minutos
*Site: http://www.saw6film.com/main.html
_________________________________________________

O SOLISTA - "Um drama urbano... sem emoções"
por Lucas Rey
____________
O filme conta a história da amizade entre o jornalista Steve Lopez e o brilhante músico esquizofrênico Nathaniel Ayers, que mora e toca um violino de duas cordas nas ruas de Los Angeles.

A premissa é encantadora: Lopez, compadecido da situação do violinista, tenta ajudá-lo a melhorar de vida, enquanto esse age de maneira confusa, devido à sua enfermidade. O problema está no desenvolvimento da metragem, pois a compaixão sentida pelo jornalista, em uma primeira impressão, não encontra respaldo no público em frente à telona, que não se emociona diante da obra sem sentimento, e dos personagens pouco carismáticos. As situações mostradas durante a passagem não traçam uma relação convincente nem entre as figuras principais, e tampouco entre a produção e quem a assiste. As cenas passam, em um quase vácuo de duas horas.

Jamie Foxx contribui para tudo isso: está apático e entediante - parece desconfortável e amador ao interpretar o solista, em contraponto ao seu papel em Ray. Robert Downey Jr. é mais coadjuvante do que deveria e se o seu personagem não fizesse algumas pequenas intervenções, nem seria lembrado.

Infelizmente, O Solista se apresenta como um drama muito ineficiente.
_________________________________________________
* Título Original: The Soloist
* Direção: Joe Wright
* Elenco: Jamie Foxx, Robert Downey Jr., Catherine Keener, Tom Hollander, Lisa Gay Hamilton.
* Roteiro: Susannah Grant (baseado no livro de Steve Lopez)
* Ano: 2008
* Duração: 117 minutos
* Site: http://www.soloistmovie.com/
_________________________________________________

Comentários para os filmes de outubro - parte 2

SUBSTITUTOS - "Troco por qualquer outro"
por Lucas Rey
____________
É mais ou menos assim: você fica deitado na cama, ligado a sensores, enquanto o seu substituto - com a aparência que desejar - faz tudo o que você manda (trabalha, vai à festa, etc.). A vantagem: você não se machuca e nem fica doente, pois não se expõe, pessoalmente, aos perigos das ruas. O prejuízo: você não tem mais motivo para viver.

A premissa é interessantíssima, em que a ideia de as pessoas se esconderem atrás de máscaras e deixarem de ser elas mesmas causa uma pseudo-felicidade que, na verdade é, somente, uma satisfação com prazo de validade. O maior problema no seu desenvolvimento é que o longa não provoca o espectador a buscar respostas. Os discursos do Profeta - líder da resistência contra os substitutos - são tão óbvios, que evidenciam a proposta da obra em oferecer tudo mastigado a quem assiste - a todo o momento. Insiste em nos lembrar que é uma produção hollywoodiana.

Outro grande problema está na narrativa como mistério a ser resolvido. Apesar de prender o espectador - e sem se pautar em uma pirotecnia exagerada (ainda que com bons efeitos) - o diretor (e os roteiristas), infelizmente, deixa evidente toda a trama (inclusive o maior culpado da história).

Por algum motivo, Substitutos fez lembrar Eu, Robô, com Will Smith, muito provavelmente por essa contestação à tecnologia. Contudo, é um filme pouco eficaz e que contribui muito pouco para o mundo do cinema.

Obs.: E uma coisa parece certa, segundo os últimos filmes que tenho visto: a moda futurista é festa psy trance, com gente drogada e cabelos coloridos.
_________________________________________________
* Título Original: Surrogates
* Direção: Jonathan Mostow
* Elenco: Bruce Willis, Radha Mitchell, Rosamund Pike, James Francis Ginty, James Cromwell, Ving Rhames.
* Roteiro: Robert Venditti e Brett Weldele (graphic novel); Michael Ferris e John D. Brancato (adaptação)
* Ano: 2009
* Duração: 88 minutos
*Site: http://www.chooseyoursurrogate.com/
_________________________________________________

BESOURO - "Herói à brasileira"
por Lucas Rey
____________
O longa conta a história de 'Besouro', figura mítica capoeirista marcante pela briga contra os maus-tratos aos negros e pelas técnicas apuradas da dança-luta (inclusive, sabia voar).

A matéria esotérica e as cenas de ação - principalmente nas lutas e treinamentos da capoeira - são o ponto alto do filme. A mão do coreógrafo chinês Huen Chiu Ku (também responsável em Kill Bill e O Tigre e o Dragão) é imperativa para os belos golpes, sem que deixe de ter um tom realista.

Infelizmente, o cuidado com o roteiro não foi tão bom. Tenta interpor um drama que não tem espaço para existir e coloca os personagens a tomar determinadas atitudes por motivações quase banais (ou, ao menos, tais situações são muito superficiais), invocando um série de chavões e clichês irritantes. Além disso, a atenção à linguagem da época também foi pouca: em algumas ocasiões os personagens se valem de gírias atuais.

A maior opinião sobre a narrativa da obra é que o herói voador, de fato, nunca existiu: na realidade, ele é uma crença (uma criação), que vive em cada um dos negros da história e essa mesma fé é que lhes dá força para reagir. O Besouro não é a ajuda física, mas um estímulo psicológico e moral.
_________________________________________________
* Título Original: Besouro
* Direção: João Daniel Tokhomiroff
* Elenco: Aílton Carmo, Anderson Santos de Jesus, Jessica Barbosa, Flavio Rocha, Irandhir Santos, Macalé.
* Roteiro: João Daniel Tokhomiroff e Patrícia Andrade
* Ano: 2009
* Duração: 100 minutos
_________________________________________________

MATADORES DE VAMPIRAS LÉSBICAS - "Tão estúpido quanto o título"
por Lucas Rey
____________
Pelo trailer, uma verdadeira obviedade, o filme tornou-se chamativo, uma vez que admitia, abertamente, ser um besteirol. Pelo título, já se tira a sinopse do longa: dois jovens vão a um vilarejo, onde se deparam com o ataque de vampiras, à noite. A maior diferença é que elas são lésbicas e a dupla terá de matá-las para proteger a amada de um deles.

Besteirol e pornografia: foram as duas primeiras ideias que vieram à cabeça ao tomar conhecimento. Bem, a pornografia não veio, no máximo um erotismo, e bem comportado, por sinal - fato de profundo lamento. Por sua vez, o besteirol veio e, infelizmente, como a maioria que está por aí: vazio, sem graça e medíocre. Não há piadas ou situações grandiosas, não existe uma narrativa interessante, não ocorre nenhuma ocasião realmente extraordinária. Os precários momentos engraçados - mais uma vez - ficam a cargo das caras e bocas do gordinho.

O sentimento que fica ao final da produção é a conclusão de que o espectador assistiu a 98 minutos de nada, de uma obra insignificante; da perda de tempo. A apresentação do trailer é verdadeira: trata-se de um filme estúpido!
_________________________________________________
* Título Original: Lesbian Vampire Killers
* Direção: Phil Claydon
* Elenco: Paul McGann, James Corden, Mathew Horne, MyAnna Buring, Silvia Colloca.
* Roteiro: Stewart Williams e Paul Hupfield
* Ano: 2009
* Duração: 98 minutos
* Site: http://www.lesbianvampirekillersmovie.co.uk/
_________________________________________________

DISTRITO 9 - "Humanidade aos alienígenas"

por Lucas Rey
____________
Uma nave paira sobre o céu de Johanesburgo. Nela, estão alienígenas doentes e subnutridos, forçados a fazer o pouso de emergência - eles vêm em paz. São muitos. O governo, então, os abriga. Depois de 20 anos, os mesmos acabam no isolamento - por cercas de arame - vivendo dos restos humanos, num grande complexo de favela conhecido como Distrito 9. A população exige a saída dos extraterrestres. A empresa terceirizada do governo - MultiNacional United (MNU) - fica encarregada de removê-los para um lugar ainda mais distante - mesmo quebrando normas e leis que protegem os seres estranhos. Wikus Van De Merwe é o responsável pela operação - ele critica e maltrata os hóspedes, coagindo-os a se retirarem do local. O próprio Wikus é contaminado por um produto alien - começa a sofrer mutações e a se transformar em um deles. Perseguido pela instituição que defendia, o sujeito só encontra um lugar para se abrigar: o D-9.

O argumento de Distrito 9 não é menos do que inovador. Desta vez - e muito diferente da massiva leva de filmes a respeito - o homem é o ser vil, cheio de más intenções. Tanto na abordagem ficcional - afinal os E.T.'s não vieram para destruir a Terra - quanto na criticidade aos contextos histórico-sociais, as colocações são precisas. Wikus é o liame, o guião desta narrativa; vai do céu ao inferno à medida em que se torna diferente - tudo passado ao espectador é nada mais do que a sua provação.

Como mensagem social (e, fundamentalmente, histórica), o roteiro é objetivo. Por se passar na África do Sul não fica menos evidente o tema central: o apartheid. Pois, sim, a analogia feita ao regime é clara: a segregação da raça diferente, em guetos (ou no Soweto), vivendo dos restos dos outros e vítimas de todo o preconceito imaginável. Obviamente, isso remete também ao próprio tratamento nazista dado aos judeus, pois a concentração em um mesmo local, os experimentos feitos com eles (recordando o 'anjo da morte') e a própria 'marcação' numérica se apresentam na obra. Tráfico, mercado negro, estado paralelo e miséria - problemas usuais, ainda hoje nas favelas - também são postados com sabedoria.

Não menos importante, a metragem aborda o fundamental da natureza humana, pelo próprio Wikus. Ao mesmo tempo em que demonstra interesse quando lhe é conveniente (e quando não correspondido, fica irado), o personagem vê a ganância e a crueldade das pessoas superarem qualquer preceito de humanidade. Literalmente, ignorando princípios de respeito à dignidade - e não só pela exclusão - o homem mente, coage e força os hóspedes a testes abomináveis - pelo desenvolvimento da ciência e do poderio bélico. Aqui, fica muito bem observada a índole egoísta do ser humano, capaz de uma violência gratuita por pura ambição.

Como ficção, a abordagem continua interessante. Primeiramente, pelo contexto em que os alienígenas vieram parar aqui e como são tratados (o que já foi escrito anteriormente). Estes mesmos extraterrestres não são malignos ou invasores, pois não usam de violência à toa, ainda que possuam armas muito mais desenvolvidas.

Diante da grande 'sacada' da narrativa, se percebe cenas de ação (tiroteios, explosões, perseguições e embates) muito boas, com efeitos de qualidade (e uma interação perfeita). A aparência dos aliens não é exagerada ou monstruosa - parecem mais gafanhotos ou camarões, como as próprias pessoas os chamam; e os cenários - principalmente a favela - são expressivamente reais. Há de se destacar também o tipo de filmagem, cujo estilo - com entrevistas postas no interior, câmeras em primeira pessoa (cinegrafista anônimo, câmera do helicóptero, visão do personagem) e terceira pessoa (filmagens de circuitos internos de T.V.), além da câmera habitual - dá clima de documentário e, consequentemente, o torna mais realista.

Sharlto Copley - o Wikus - emaranha o seu personagem na teia complexa da situação em que acabou. Demonstra muita criatividade para carregar o personagem e qualidade para guiar o espectador pela história. Da mesma forma, o diretor conduz com personalidade as cenas mescladas - em dados momentos (da metade para o final) subjuga-se a algumas 'filosofias hollywoodianas' típicas do gênero (apelo emocional e considerável aumento na ação, por exemplo), é verdade; entretanto, nas ocasiões seguintes, supera os chavões e não permite que a produção despenque de qualidade ou perca o seu tom inventivo.

'Eles não são bem-vindos. Eles não são aceitos. Eles não são humanos' - estas frases simples e geniais do trailer do longa substanciam a proposta da forma mais contundente. A união (e equilíbrio) criativa da ficção à crítica é muito eficaz, porque ao mesmo tempo em que diverte, ensina. A trilha sonora - embasada por cordas e solos vocais - é simbiótica com a película. As 'deixas' do final são preciosas. E o primeiro trabalho de Neill Blomkamp é elogiável.
_________________________________________________
* Título Original: District 9
* Direção: Neill Blomkamp
* Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt, Sylvaine Strike, Elizabeth Mkandawie, John Sumner, William Allen Young.
* Roteiro: Neill Blomkamp e Terri Tatchell.
* Ano: 2009
* Duração: 112 minutos
* Site: http://www.d-9.com/
_________________________________________________