GAMER - "Um Matrix babaca"

por Lucas Rey
____________
No futuro, a maior fonte de entretenimento são simuladores de vida on-line. Diferentemente dos outros programas, em 'Society', um internauta controla seu personagem - uma pessoa de verdade contratada para satisfazer os desejos de seu jogador, em determinado ambiente - em uma espécie de second live real. Com o sucesso do produto, o criador inventa outro jogo - 'Slayers' - ainda mais atraente: põe condenados (presos reais) em cenários mortais - controlados por cibernautas - lutando pela própria sobrevivência. Enquanto a maioria do público torce, sem outras preocupações, pelo presidiário Kable - que sobreviveu ao maior número de sessões da história do game - um grupo de resistência tenta mostrar a crueldade deste jogo tão sangrento, ao mesmo tempo em que o próprio Kable almeja sua liberdade.

Não há muito a discursar sobre a metragem. A ideia inicial não é muito promissora, mas parecia transparecer algo mais consistente (afinal, humanos controlando humanos por diversão é um pouco provocativo, se visados princípios como a dignidade). Porém, assim como previsto, o desenvolvimento é tenebroso: não há nada no conteúdo essencial que se aproveite e a fraqueza dos personagens é tamanha que chega a dar pena. Kable está tão incerto das suas convicções quanto o espectador que aguarda sua próxima atitude. E as únicas palavras que o roteiro parece prover são: porrada e tiroteios.

Aliás, se ele é filosoficamente deplorável, a ação é munida por efeitos tecnicamente bons. As cenas de combates e perseguições - muitas vezes inúteis e desnecessárias - são frenéticas e pirotécnicas, talvez capazes de elevar o nível de adrenalina dos mais apaixonados. A filmagem, em um visual meio videogamezado - e não tão agradável aos olhos - ao menos garante o estilo do longa.

Como dito pelo colega Thales, ao término da sessão, Gamer não passa de 'um Matrix babaca'. Ou seja, efeitos especiais e visual futurista alternativo, embasados por nada de relevante no teor; argumentos completamente descartáveis. Nada de narrativa que provoca intelectualmente ou história complexa. Vale, unica e exclusivamente, pela ação - que é boa, mas não chega perto das melhores do gênero.
_________________________________________________
* Título Original: Gamer
* Direção: Mark Neveldine e Brian Taylor
* Elenco: Gerard Butler, Amber Valetta, Michael C. Hall, Sedgwick, Logan Lerman, Alison Lohman.
* Roteiro: Mark Neveldine e Brian Taylor
* Ano: 2009
* Duração: 95 minutos
_________________________________________________

TÁ CHOVENDO HAMBÚRGUER - "Como o próprio sanduíche: gostoso e pouco nutritivo"

por Lucas Rey
____________
Flint Lockwood é um cientista genial, cujas invenções nunca dão certo. Quando sua última empreitada - uma máquina que, basicamente, transforma água em comida - funciona, ele fica muito famoso. No entanto, a intenção inicial do jovem - terminar com a fome na sua cidade; ou pelo menos oferecer algo mais do que sardinha todo o dia - acaba distorcida, tanto quando ele cede a desejos individuais das pessoas, quanto no momento em que o prefeito da cidade enxerga ali uma oportunidade de negócio lucrativo. Então, quando tudo toma proporções maiores que as previstas, o rapaz tem que dar um jeito de deter a sua magnífica criação.

Não há como negar que a ideia central (com base no livro dos Barrett) parece bem agradável e, ao mesmo tempo, apta a possibilitar lições muito interessantes. Porém, com o desenvolvimento da metragem, a percepção das abordagens superficiais e as mesmices nos ensinamentos morais ficam cada vez mais evidentes (como quanto maior a altura, maior a queda/tudo que é demais faz mal). Infelizmente, não há renovação (ou reciclagem) dessas lições e quase inexiste criatividade na aplicação do assunto (a mensagem sobre querer acabar com a fome no mundo, por exemplo, é matéria mal utilizada na obra pois, em momento algum, alguém fica preocupado ou reflexivo com o tema). Portanto, o estúdio demonstra sofrer desse mesmo mal narrativo que muitos outros do gênero padecem (pouquíssimos estão imunes - como a Disney/Pixar); e o que torna suas produções incompletas.

Contudo, apesar de ainda contar com relações mal desenvolvidas e personagens sem qualidades marcantes, a apresentação se mantém bem divertida. A aventura é bacaninha (com certeza, chama a atenção dos mais jovens) e as piadas se resumem às caras e bocas, ou a detalhes dos olhos (como o arregalar deles), mas parte delas são bem boladas. A animação atrai: coloridona e com as figuras humanas providas de uma cabeça desproporcional ao corpo. Os cenários e detalhes são bem contornados, assim como a tecnologia das três dimensões, que continua a propiciar uma participação mais ativa ao espectador.

É completamente inútil dizer que a proposta do novo trabalho da Sony Pictures Animation (também criadora de O bicho vai pegar e Tá dando onda) é muito diferente de outras animações que estão por aí - tanto tecnicamente quanto no que se refere ao teor. Substancialmente, o título em português se adapta muito bem às características do próprio longa, pois, de fato, assistir a Tá chovendo hambúrguer é como comer o sanduíche: ainda que possua conteúdo pouco nutritivo (de importância mínima!), é muito gostoso de apreciar (é divertido!) - algo extremamente efêmero, momentâneo; sem qualquer expectativa de grande durabilidade.
_________________________________________________
* Título Original: Cloudy with a Chance of Meatballs
* Direção: Phil Lord e Chris Miller
* Elenco (dublagem original): Bill Hader, Anna Faris, James Caan, Andy Samberg, Bruce Campbell, Mr. T, Benjamin Bratt.
* Roteiro: Phil Lord e Chris Miller (baseado na obra de Judi e Ron Barrett)
* Ano: 2009
* Duração: 90 minutos
_________________________________________________

ANTICRISTO - "Interessantemente confuso"

por Lucas Rey
____________
Vaiado em Cannes e, ao mesmo tempo, coberto de elogios por parte da crítica, eis aí um filme que surpreende. Não me atrevo, aqui, a proferir conclusões imutáveis sobre a produção, pois penso que Anticristo é o tipo de longa que se assiste uma dezena de vezes, e mil outros apontamentos e interpretações podem surgir (dependendo do momento, estado emocional, ou outros fatores). Sendo assim, o que segue, na verdade, são as conclusões de primeira viagem.

À história, então: após a morte do pequeno filho, uma mulher fica totalmente abalada psicologicamente. Seu marido - terapeuta - decide ajudá-la a superar o trauma e a depressão pelos quais ela passa, tentando fazê-la enfrentar seus medos e aguentar a dor e o sofrimento.

É muito relevante lembrar que se trata de uma obra psicológica, pensativa e, portanto, tende a ser mais parada. Lars von Trier coloca o homem em um campo minado; numa caça à raposa, na qual o próprio ser humano é a raposa. Apesar disso, o impacto visual das cenas é exponencialmente maior do que a própria reflexão proposta.

Para começar, o chamado "prólogo" é chocante, forte e ousado (e, na minha opinião, um primor!): possui estética poética; sem coloração, em câmera lenta e com uma trilha sonora suave, ao fundo. Até aí, tudo normal, não fossem dois fatos: primeiro, o ocorrido com a criança (que me fez engolir em seco, tamanha a sua sutileza). Depois, a apresentação escancarada da cena de sexo, sem censura alguma (e que me deixou paralisado por alguns instantes). O início já é suficientemente provocador, para que o espectador se interesse em descobrir o que vem a seguir.

O que também gera desconforto são as diversas cenas projetadas no decorrer da película: muito sexo (desta vez, mais comportado), torturas e mutilações (principalmente das genitálias) expostos da maneira mais crua imaginável (justificada, mas excessiva - quase inassistível). É realista ao extremo; causador das mais diversas sensações, impossíveis de traduzir em meras palavras.

O mais perceptível está no alvo da crítica: o homem. A depressão que se torna insanidade ressalta a fragilidade da natureza humana. A dualidade nas ações da personagem - o amor e o ódio; a agressão e o sexo - em um curto espaço de tempo são munição para que Von Trier ataque incessantemente esse ser vil e imperfeito. É clara a demonstração da linha tênue entre a razão e a loucura (que parece ser fruto da própria experiência do diretor), e do inferno do homem, que reside nele mesmo; na sua fraqueza e em suas deficiências. O mal é inerente a ele.

Ressaltar que é uma projeção confusa e com muitos devaneios (como já disse, não acho que assisti-la dez vezes me fará entendê-la por completo) é desnecessário, talvez até inútil. Grande parte dos delírios, metáforas e simbolismos referenciados pelo autor passam batidos (ao menos por mim. E se, de fato, existem mesmo, diminuem a acessibilidade) e causam um sentimento de aflição, insegurança. Comentários como "É doentio", "Que maluquice é essa?" ou "Que mal gosto" são perfeitamente normais, uma vez que se trata de um trabalho bastante questionável (defeito ou mérito?). Longe de ser realmente brilhante, o mais justo é vê-lo, positivamente, pelo lado provocador, incomum e, consequentemente, polêmico. O mais importante de tudo: para o bem ou para o mal (dependendo do ponto de vista), Anticristo incomoda bastante.

P.S.: Acho injusto, contudo, não fazer referência a Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg, os quais seguram, com competência, a metragem toda. Têm grandes atuações, ainda mais se observado que são apenas dois personagem durante (quase) todo o tempo.

Obs. (HÁ SPOILERS): Em uma segunda olhadela, pude observar mais atentamente o suposto ataque de Von Trier às mulheres. Ele as mostra como, naturalmente, manipuladoras e más (ex.: Eva levou Adão ao pecado) e, por isso, foram reprimidas ao longo da história (ex.: A Santa Inquisição). A personagem de Gainsbourg estuda essa tese e a adota ao invés de criticá-la - como se a mulher fosse o pensamento do próprio diretor e roteirista (será que ele apoia ou condena as atitudes?). Além do mais, os três mendigos (veado-luto, raposa-ansiedade, corvo-desespero) me pareceram bem mais interessantes para a história, nesta segunda oportunidade - pois elucidam o mal da natureza humana.
_________________________________________________
* Título Original: Antichrist
* Direção: Lars von Trier
* Elenco: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg.
* Roteiro: Lars von Trier
* Ano: 2009
* Duração: 109 minutos
_________________________________________________

A onda - "Nazi-fascismo for dummies"


Por Thales Minuzzi

"Uma ditadura como a de Hiltler nunca se repetiria nos dias atuais", disseram eles. "Porque as pessoas são mais esclarecidas", justificaram. Ok, deixemos assim...

Para tornar as aulas sobre autocracia mais interessantes, o professor de ensino médio Rainer Wenger (Jürgen Vogel) sugere um experimento: que seus alunos simulem um regime ditatorial entre si. Isso significa que todos devem andar uniformizados, obedecer aos desmandos de um líder (no caso, ele próprio) e serem fiéis ao movimento. Outros elementos, como saudações especiais e logotipos vão, com o tempo, sendo incorporados pelos membros atraídos por uma confortável sensação de união. Mas o que no começo parece uma brincadeira inocente com puro fundo educacional, logo vira um organizado grupo fechado, auto-suficiente e representativo ao extremo na vida de seus componentes. Alguns jovens não concordam muito com a iniciativa e se voltam contra seus colegas. Mas ao mesmo tempo também se tornam inimigos declarados da sociedade denominada " A Onda".

Resumindo: vemos em proporções muito menores aquilo que aconteceu ao longo da história da humanidade. Ou seja, como as ideologias cegam as pessoas, e a forma como elas acatam ordens sem pensar muito no que estão fazendo. Também é possível observar o fanatismo de determinados membros, que enxergam na fidelidade ao grupo um significado para sua vida, que antes não tinha propósito.

Falando especificamente do longa-metragem, é louvável a maneira natural com que passa sua mensagem. O clima de "simples colégio com adolescentes", faz a temática ganhar ainda mais força, uma vez que o espectador conclui que autocracia e lavagem cerebral podem acontecer em praticamente qualquer lugar, inclusive (releiam o início do texto, o início!) em um mundo globalizado como o nosso. O elenco também colabora com a veracidade da situação, ainda mais na parte final, quando "A Onda" já não é mais uma brincadeira, extrapola os limites da escola e as circunstâncias exigem dos atores uma maior carga emocional.

'A onda' é baseada em um livro, que depois virou filme, mas o que inspirou os anteriores foi um acontecimento desse nível nos Estados Unidos, na década de 60. Essa é a parte mais assombrosa. E atentem, isso que vem a seguir é opinião minha sobre o fato em si: não importa quanto de informação disponível as pessoas têm sobre o passado (ainda mais na Alemanha, onde o Nazismo ainda é ferida cicatrizando), se isso não é assimilado. A obra levanta uma questão importantíssima: precisamos pensar, refletir sobre o mundo que se forma à nossa volta. Só é uma pena que raciocínio, sabe-se, dá trabalho, enquanto "ir junto com a maré", não. Corromper o homem não é tão difícil, afinal.

Nota: 9,0

Cyber Opinião - "Politicamente interessante, 'A Onda' revela (nesse pequeno experimento verídico) que é fácil manipular um povo, distorcendo ideais - como comunidade e união. Filosoficamente grandioso, o longa mostra que o ser humano erra; critica os seus erros; contudo parece, muitas vezes, esquecê-los, e torna a cometê-los da mesma maneira que anteriormente - mesmo que se trate de uma parte da história tão horrível como o nazismo/fascismo." (Lucas Rey)
__________________________________
*Título Original: Die Welle;
*Diretor: Dennis Gansel;
*Elenco: Jürgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Cristina do Rego;
*Roteiro: Dennis Gansel, Todd Strasser (livro "A onda");
*Ano: 2008;
*Duração: 107 minutos ;
__________________________________

Comentários para os filmes de agosto - parte 2

SE BEBER, NÃO CASE! - "Ou como fazer um clichê criativo"

por Lucas Rey
____________
Doug vai, junto com três grandes amigos, a Las Vegas para sua despedida de solteiro - será uma noite inesquecível para os quatro marmanjões. Porém, ao acordarem da ressaca, no dia seguinte, os três padrinhos não encontram o noivo. A partir dessa busca, eles descobrem as confusões e encrencas que podem ter se metido enquanto bêbados.

O argumento parece ser dos mais clichês possíveis. Puxa vida, despedida de solteiro está para comédia, assim como 'matador desconhecido' está para os filmes de terror, mesmo nos dias de hoje. O que esperar então? A resposta vem com uma satisfação acima da média, pois o desenvolvimento da película é realmente muito bem feito. Tanto roteiristas quanto diretor exploram o tema 'ultrapassado' com criatividade, jogando situações e piadas - astutas e engraçadas - a todo o momento. Além de tudo isso, o trio que encabeça a produção é muito competente e inventivo (a melhor atuação fica a cargo de Zach Galifianakis).

Por isso, ao assistir 'Se beber, não case!', não se posicione na cadeira para observar um alto nível intelectual, contudo para ver um 'besteirol produtivo e totalmente aconselhável'. É muito divertido e, diferentemente de outros do gênero, aqui não há abordagens fracas, que tentam ser suplementadas por caras e bocas ou um comediante famoso.
_________________________________________________
* Título Original: The Hangover
* Direção: Todd Phillips
* Elenco: Bradley Cooper, Ed Helms, Zach Galifianakis, Justin Bartha, Heather Graham, Sasha Barrese, Jeffrey Tambor.
* Roteiro: Jon Lucas e Scott Moore.
* Ano: 2009
* Duração: 100 minutos
_________________________________________________
_________________________________________________

AMANTES - "Ou sobre as confusões e incertezas de um homem"

por Lucas Rey
____________
Leonard fica em depressão após sua noiva tê-lo deixado. Depois de tentativas de suicídio, o rapaz é apresentado à comportada Sandra, filha de um amigo de seu pai, a qual tem certa afeição por ele. Quase simultaneamente, ele descobre sua vizinha, a impulsiva e hesitante Michelle, por quem se interessa instantaneamente. Agora, terá de escolher entre os dois amores, buscando uma vida mais feliz.

Primeiramente, o longa é propositalmente parado. Como drama puro que se apresenta, nenhum outro gênero o atrapalha - só há o instinto reflexivo sobre atitudes a tomar e escolhas a fazer. E mesmo assim, o ritmo monótono e a previsibilidade de cada cena não incomodam em nada - não se trata de uma obra de reviravoltas, mas uma análise psicológica profunda do personagem principal em meio às suas decisões e inseguranças, quanto às duas mulheres que se oferecem à sua frente. Joaquin Phoenix está elogiável (Gwyneth Paltrow e Vinessa Shaw nem tanto). O ator, neste seu último trabalho para o cinema, centra as aflições de Leonard, e desenvolve seu personagem com uma convicção que assusta.

Na metragem, se lida com a figura central e nada mais - não importa muito o cenário ou os demais artifícios. Trata-se do estudo do medo, das relações e do perfil de um homem perturbado pela própria incerteza. O foco está na sua parte emocional e psicológica. É, definitivamente, um belo filme para refletir; mesmo que isso não divirta tanto.

_________________________________________________

* Título Original: Two Lovers
* Direção: James Gray
* Elenco: Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow, Vinessa Shaw, Isabella Rosselilni, Elias Koteas.
* Roteiro: James Gray e Ric Menello.
* Ano: 2008
* Duração: 110 minutos
_________________________________________________