
por Lucas Rey
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Quando assisti ao primeiro Tron, devo confessar que não achei grande coisa. Tudo bem que o argumento e o visual possuem seu valor, contudo o desenvolvimento é completamente bagunçado. Achei que perderam uma bela chance de fazer algo inesquecível - quem sabe até um clássico? - ao optarem pelo reducionismo daquela temática que estava sendo trabalhada. Para mim, então, não havia realmente um "legado" interessante, na trama em si, para ser tratado.
Quase trinta anos após o lançamento do original, alguém resolveu resgatar os conceitos daquele universo e aproveitar todos os recursos tecnológicos dos anos 2000 para justificar uma continuação da "odisseia eletrônica". Agora, é o filho de Kevin Flynn - Sam - quem adentra o mundo virtual em busca do pai, desaparecido há décadas. Em que isso poderia resultar?
Se havia uma boa herança deixada pelo exemplar de 1982, essa seria o aspecto visual, cujos gráficos e desenhos da conjuntura digital eram reflexo puro e caprichado dos video-games da época. Apesar de não possuir o mesmo significado contextual, O Legado é esteticamente apurado e visualmente bonito. Além do bom figurino, o cenário detalhado e os efeitos especiais de luzes led e neon estruturam o tom high-tech adequado e necessário à história (me lembrou um pouco, dadas as diferenças, a construção de Speed Racer, em 2008). A técnica 3D, ainda que não se aproxime da perspectiva de um Avatar, vale a pena pela diversão daquele panorama futurista saltando aos olhos (o não quer dizer que as coisas saiam voando para fora da tela!). Além do mais, a empolgante trilha sonora eletrônica - responsabilidade dos franceses da Daft Punk - se funde muito bem a todo retrato visto na tela.
Porém, quando se fala dos filmes de efeitos especiais hollywoodianos, normalmente, esses recebem roteiros preguiçosos, cuja camuflagem vem na pirotecnia. Infelizmente, a trajetória deste trabalho é semelhante ao daquele que lhe deu origem, uma vez que padece dos mesmos erros essenciais. Embora a trama pareça um pouco mais concreta para movimentar as cenas na aventura, permanece repleta de furos, exalando superficialidade e previsibilidade nos assuntos abordados, e carecendo de uma exploração cuidadosa e inteligente. A pouca produção intelectual, assim, gera (e regenera) um conjunto de concepções e ideias fragilizadas pelo seu ínfimo valor reflexivo, o que elucida a opinião de que o plano teórico e fundamental da narrativa, uma vez mais, foi secundarizado.
Se a desordem insiste em imperar na série, os personagens também não recebem o carinho merecido. Kevin é o mais legal, simplesmente, porque é o liame entre as duas metragens (um elemento "clássico" dentro das "saga"), e não por suas motivações e atitudes. Sam e Clu (com boa interpretação de Bridges), por exemplo, poderiam ser figuras interessantes se conseguissem transmitir com clareza seus propósitos e frustrações. Quoora - negativamente confusa e ingênua - deveria possuir um significado muito grande, pois é uma espécie de esperança dentro daquele sistema; e Suze - o papel de Michael Sheen - parece produto de pouca criatividade, visto que é bastante similar ao traficante de informações Merovingian, de Matrix Reloaded.
Sendo assim, Tron continua visualmente estiloso e elegante, o que pode denotar diversão, ainda que pontual, aos seus espectadores. Mas só. A sequência, além de sofrer com a história debilitada, não representa muito para a geração que a assiste, como foi a obra de 1982. Acho-o, no entanto, um entretenimento razoável, mesmo que seja inferior à primeira projeção.
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* Título Original: Tron: Legacy
* Direção: Joseph Kosinski
* Elenco: Garrett Hedlund, Jeff Bridges, Olivia Wilde, Bruce Boxleitner, James Frain, Beau Garrett, Michael Sheen.
* Roteiro: Adam Horowitz, Richard Jefferies, Edward Kitsis, Brian Klugman, Steven Lisberger, e Lee Sternthal. * Ano: 2010
* Duração: 127 minutos
* Site: http://disney.go.com/tron/
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