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Até a parte final, a cerimônia do Oscar não teve nada de grandes surpresas. O injustiçado A Origem acabou com quatro prêmios técnicos, mas perdeu no roteiro original para o Discurso do Rei. Mal sabia eu o prenúncio que esse prêmio carregava quando, depois da óbvia escolha de Firth como melhor ator, Tom Hooper tirou a estatueta que era praticamente certa (e bem mais merecida) à condução de David Fincher. A minha cara foi a de mais espanto possível, pois ali se instalaram as grandes e reais chances de O Discurso do Rei ser o filme do ano. E não foi menos surpreendente: o exemplar britânico acabou ganhando.
Mais de 12 horas depois das premiações, contudo, ainda não me conformo com a escolha da categoria principal. Não nego que O Discurso do Rei seja uma bela história, contada com cuidado e merecedora das 12 indicações. Eu mesmo saí do cinema bastante satisfeito com essa ótima metragem de atuações ainda mais grandiosas. No entanto, O Discurso do Rei, tenho absoluta certeza, é daquele tipo de filme que passa. A Rede Social, por exemplo, virará, amanhã, um grande clássico que conta a história de uma geração; A Origem será lembrada por anos por ser um dos grandes exercícios de raciocínio e complexidade do cinema; o próprio Toy Story é o retrato de um final perfeito que marcará, ao menos, uma geração inteira. Mas O Discurso do Rei, por maior qualidade que tenha (ainda que menor que os anteriormente citados), aos poucos ficará esquecido (talvez não tão esquecido em função do prêmio), porque não possui impacto suficiente para marcar.
Se rememorarmos um pouco, é muito parecido com o caso ocorrido em 2006, quando Crash - No Limite, um trabalho absolutamente comum e hoje somente lembrado negativamente nas recordações do Oscar, tirou a estatueta de O Segredo de Brokeback Mountain que, sem dúvida, é um longa muito melhor e inúmeras vezes mais marcante. Ou mesmo lembrar da injustiça com Cidadão Kane, embora sua derrota tenha um forte traço da influência advinda de relações de poder e política. Ou ainda, provocando um pouco mais, por que não duvidar do merecimento de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen, em face da revolução visual regada com uma excelente trama filosófica provocada por Star Wars? Vocês, evidentemente, podem trazer a discussão do ano passado, na disputa de Avatar e Guerra ao Terror. Só que nesse caso, além da revolução visual, uma projeção precisa possuir qualidades de roteiro, para ser um FILME marcante. E nesse quesito, todos sabem, Avatar falha de maneira bastante chamativa.
Mas quem, de verdade, (pelo bem do cinema) segue as escolhas do Oscar? Quem, por exemplo, indica Shakespeare Apaixonado, ao invés de O Resgate do Soldado Ryan ou A Vida É Bela?
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